A contaminação logo abaixo de nossos pés

O chorume é uma fonte muito comum de contaminação de águas, o mais difícil é saber onde ele está

Cerca de 97% da água em nosso Planeta é encontrada nos mares e oceanos, apenas 3% serve para o consumo humano. Se considerarmos apenas a água doce, 69% dela está presa em geleiras, e apenas 1% é encontrada em rios, lagos e atmosfera. Então onde estão os outros 30%? Abaixo de nossos pés. As águas subterrâneas são essenciais para manter a demanda da população por água, entretanto, hoje, enfrenta-se um sério problema, a sua contaminação. Um estudo realizado pelo IGc USP em um aterro sanitário na cidade de Araras, SP, analisou a água subterrânea na região e uma possível contaminação por chorume, que poderia atingir o rio que  abastece a cidade.

O aterro sanitário da cidade de Araras era utilizado para resíduos sólidos, disposição de resíduos domiciliares e de construção civil, e operou de 1992 a 2008. Porém, a construção do aterro e a distribuição dos resíduos não seguiram os procedimentos básicos exigidos para se evitar a contaminação local.

Os aterros constituem uma importante fonte de contaminação de águas subterrâneas, pois a substância gerada a partir da decomposição dos materiais descartados por processos biológicos, químicos e físicos,  o chorume, é altamente poluente para o solo e água.

Uma vez que o chorume entra em contato com a água subterrânea, ele se integra ao sistema hidrogeológico. É necessário, então, estudar a dinâmica do aquífero e a qualidade de suas águas. A hidrogeologia é o ramo da ciência que trata desses estudos.

contaminaçao

Hidrogeologia e os contaminantes

A hidrogeologia estuda a movimentação e a química de fluidos em subsuperfície, ou seja, qualquer material aquoso que esteja no solo, seja água ou contaminante.

O trabalho de um hidrogeólogo em um caso de contaminação é desenvolver um modelo conceitual, ou seja, um modelo que explique as diferentes zonas decorrentes da contaminação ligadas ao aterro e os processos causados pelo líquido lixiviado (chorume) nas águas subterrâneas e no solo.

No aterro de Araras, era necessário saber até onde a chamada pluma de contaminação havia chegado. Para isso foram utilizadas algumas metodologias. A geofísica, por meio do método de eletrorresistividade, contribuiu para mapear os limites da contaminação, auxiliando e minimizando os custos e tempo da avaliação inicial da abrangência da contaminação, já que os métodos geofísicos são não-invasivos, ou seja, não há a necessidade de perfurar o solo para a coleta de amostras de solo e água. O ensaio geofísico é feito na superfície.

O método da eletrorresistividade  permite identificar regiões abaixo da superfície que estão mais resistivas e que, neste caso, podem estar associadas à contaminação. O chorume torna o solo mais resistivo. A realização desse método dá insumos para a próxima etapa.

Sondagens e Poços de monitoramento

Para identificar o nível d’água do lençol freático com precisão é necessário executar sondagens e poços de monitoramento. Na sua execução, permitem a retirada de amostras para a realização de várias análises (granulometria, porosidade, etc.) e, depois de prontos, são usados para monitorar a variação do nível d’água e da eventual contaminação.

Na área investigada em Araras, esses poços coletaram informações como pH, temperatura, condutividade elétrica, oxigênio dissolvido, entre outros parâmetros. Todas essas características da água, em cada poço de monitoramento, permitem identificar se há ou não contaminação.

O que se pode afirmar com os dados?

O aterro está localizado próximo do rio Araras. Como o rio é uma zona de descarga, ou seja, as águas subterrâneas vão em direção ao rio, o chorume faz o mesmo caminho. Isso pôde ser identificado nos dados coletados dos poços de monitoramento. É possível afirmar que o aterro está em fase metanogênica. Nessa fase ocorrem reações químicas e biológicas que degradam o contaminante em outros compostos químicos, alterando a qualidade da água subterrânea. Diversos outros componentes químicos são encontrados em concentrações acima do esperado, como nitrogênio amoniacal, sódio, cloro e ferro, sendo que esses componentes estão associados ao lixiviado.

O mesmo pode ser dito da água do rio Araras. Ela não pode ser consumida e nem utilizada para nenhum fim potável.

O que pode ser feito então?

O aterro está gerando chorume com fluxo para o rio Araras, tornando-o insalubre para o uso humano. Uma vez identificando a direção de fluxo do contaminante, a sua área de dispersão, e como ele está agindo no meio, é possível buscar ações corretivas ou mitigadoras. Construir uma barreira que impeça que a pluma de contaminação continue descarregando no rio é medida paliativa. Seria necessário utilizar técnicas de remediação da área que  removam o contaminante do local onde está ou que degradem esse material através de processos bioquímicos (oxidativos e biorremediação).

A água é um bem precioso demais para ser tratada com descaso. Apesar das técnicas de remediação terem se modernizado, a melhor alternativa é evitar a contaminação.

 

A matéria acima foi baseada no artigo de Alves & Bertolo (2014) que pode ser visualizado neste link.

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